Notícias

A formação em leitura na escola: o direito à literatura e a construção de mundos possíveis

*Por Bia Gouveia

Leio bastante desde criança. No início, contei com a ajuda de algumas professoras e de minha mãe que, generosamente, emprestavam suas vozes aos textos e me presenteavam com diversas histórias. No final da infância, já como leitora autônoma, descobri o prazer da leitura silenciosa. E descobri também outra coisa, que as histórias, as personagens me permitiam viver outras vidas, outras tramas, sem que eu deixasse de ser eu mesma. A experiência de viver a vida dos outros nos livros me ajudava a compreendê-los e a me entender um pouco mais. E, à medida que eu descobria outras maneiras de ver a realidade, emocionava com a minha nova inserção no mundo. Agradeço a todos eles.

 

Não parei mais de ler. A leitura me faz sentir que o mundo está disponível para mim, que sempre é possível compreender um pouco mais e começar de novo.

 

Antonio Candido defendeu em vários de seus escritos que a literatura é um direito humano. Ele dizia que ela é capaz de nos humanizar, na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. Ele dizia também que a literatura nos liberta. A possibilidade de entender o mundo por meio das ideias, dos pontos de vista de diferentes autores nos oportuniza compreender como as coisas funcionam e descobrir outras maneiras de ver a realidade. Liberta-nos porque conhecemos.

 

Essa é a força da literatura. Ela nos ajuda a expandir a nossa compreensão e o tamanho do mundo. No entanto, se há tantas vantagens na leitura, o que acontece que não temos conseguido ampliar o número de leitores no país?

 

Reconhecer a necessidade da leitura e falar sobre a sua importância não é suficiente para formar bons leitores. No Brasil, 27% dos brasileiros (entre 15 e 64 anos) são considerados analfabetos funcionais, isto é, não compreendem o que leem, não têm condições de participar plenamente do universo da cultura escrita. Não basta oferecer materiais escritos e dizer que ler é importante. Ler é compreender. A formação de leitores pressupõe professores leitores e boas experiências leitoras (neste pequeno texto, restrinjo minhas considerações à leitura literária, mas ressalto que as condições para enfrentar o problema do analfabetismo funcional, e para formar um leitor pleno, passam, necessariamente, pelo trabalho com textos não literários).

 

Que aqueles que desejam participar ou se responsabilizar pela formação de novos leitores vejam aqui um convite para pensarmos nas condições para uma boa experiência com a leitura:

 

Primeiro, dimensionando o lugar da literatura. Tirar dela o peso de salvar o mundo, sem deixar de reconhecer sua potência de salvar a nós mesmos por meio de palavras e narrativas que nos ajudam a nomear o que vivemos, elaborar nossos conflitos existenciais e, enfim, a compreender melhor o outro.  

 

Segundo, sabendo escolher os livros. Imagina-se que a leitura pode fazer uma intervenção direta no comportamento dos alunos. É como aceitar que, se as escolas recomendassem apenas livros que tratam da bondade, não teríamos maldade no mundo. Sabemos que não funciona assim, pois existir é bem mais complexo, não? Esta ideia abarca uma visão de criança pouco potente, incapaz de entrar em contato com a sua subjetividade, seu imaginário, com seus conflitos pessoais, com suas sombras e com a complexidade da vida.

 

Formar um leitor competente pressupõe viver experiências que possibilitam entrar em contato com a condição humana. Significa, portanto, tratar de assuntos como a busca pelo autoconhecimento, os conflitos éticos, a estética como nuances de representação, as diferenças, o lugar do outro, a passagem do tempo, a viscosidade entre a realidade e a fantasia, as separações e mudanças da vida, entre outros. Como diz Ilan Breman, são assuntos sobre os quais não há o que “ensinar”. Não são constituídos por informações atualizáveis ou mensuráveis. São temas, isso sim, diante dos quais adultos e crianças podem apenas compartilhar impressões, sentimentos, dúvidas e experiências.

 

Terceiro, oferecer a oportunidade de ler para os outros e com os outros. A leitura literária pode ser uma atividade social, coletiva. Isto é, compartilhar a mesma história e falar sobre ela, pensar junto, construir sentidos em diálogo. Na escola, é uma prática comum e das mais potentes: oferecer aos alunos a oportunidade de entrar em novas camadas de interpretação, de escutar seus colegas e criar a necessidade da argumentação. É uma situação em que a surpresa é um componente essencial na relação do professor e aluno, pois o modo de entrar nos textos não está dado de antemão, e o professor não tem a chave. A ele cabe partir da premissa de que todos os alunos têm capacidade de construir sentidos, de construir conhecimentos.

 

Para as crianças menores, a leitura pelos professores (ou outros adultos) é a oportunidade que elas têm de entrar em contato com as histórias e com a linguagem escrita. São situações que ajudam a transformar o livro em objeto cultural.

 

Quarto, fazer da escola uma comunidade de leitores: pais, professores, funcionários e alunos. Movimentar a escola em torno da leitura: saraus, sessões simultâneas, uma boa biblioteca, roda de leitores, mural com indicações de livros, indicações de booktubers...

 

E por fim lembrar que uma boa experiência leitora passa pelo afeto. Ler nos aproxima do outro, nos ajuda a construir sentidos juntos, e quando o mediador da leitura (seja ele o professor, ou alguém da família) se sente afetado pela história, ele tem boas chances de afetar o outro, de mobilizar o seu interesse.

 

Essas boas experiências ajudam o leitor a construir um espaço entre ele e o outro, o indivíduo e o mundo. Um espaço que está sempre em construção, tem fronteiras maleáveis e que, aos poucos, vai percebendo as regiões mais importantes da experiência humana. É a construção do espaço poético.